Diga não à neutralidade

EM: 17 de julho de 2016

A escola diz que prepara seus alunos para o desenvolvimento integral e para a cidadania, mas na prática está longe disso. Há cidades brasileiras proibindo os professores de falar sobre sexo, futebol, religião ou política. Outras empurram goela abaixo uma “cartilha” com o que “deve ser ensinado”. Proíbem o professor de opinar. Em vez de ensinar a debater, usar raciocínio lógico, argumentação e contra-argumentação, preferem acreditar que não opinar é mais saudável.

Segundo esses ingênuos e supérfluos legisladores de gabinete é melhor que os professores sejam “neutros” nesses assuntos. Parece até que acreditam existir tal neutralidade. Entretanto, quem não levanta a voz contra a corrupção, a falta de ética ou a manipulação da opinião do povo, dá espaço para que a maldade se perpetue. Ou seja, a neutralidade é aliada justamente daqueles que sonham que ninguém os incomode nas falcatruas.

Roubaram verbas que iam para a merenda de crianças. A falta de nutrientes importantes na alimentação pode prejudicar o desenvolvimento do cérebro justamente daqueles que serão o futuro da nação. Mas qual foi a reação do nosso povo? Silêncio. Melhor não opinar. Melhor não falar sobre isso nas escolas. Ser contra ou a favor dos que estão destruindo neurônios infantis pode trazer “problemas” para a “neutralidade”. Não quero isso para meus filhos.

Quero que aprendam a opinar, a debater, a usar conhecimento científico, filosófico e histórico para fundamentar suas ideias e aprofundar reflexões. Quero que aprendam a respeitar as pessoas independentemente de suas convicções político-partidárias. Desejo que saibam pedir desculpas ao perceber que estavam errados em suas posições. Espero que conheçam as origens do preconceito e lutem contra ele. Quero que conheçam os fundamentos das ideologias que se escondem atrás das decisões políticas de esquerda ou de direita, dos axiomas da fé dos fundamentalistas, do ateísmo ou de qualquer outra forma de ver o mundo.

E sonho, sem medo de ser feliz, que saibam tomar suas próprias decisões com base na crítica sincera que possam fazer de tudo isso. Proibir-lhes de compreender a atualidade ou a história com a falsa desculpa de que podem ser “influenciados” é acreditar que a ignorância poderá protegê-los da manipulação. É justamente o contrário. A “verdade” os libertará. O conhecimento lhes servirá de escudo contra os manipuladores e contra os “fiéis” deste ou daquele partido, postura ou ideologia.  Desejo sinceramente que as crianças possam ter um professor apaixonado pela esquerda e outro pela direita e que saibam rir dos dois e crescer com ambos. Que aprendam a separar o joio do trigo, como diria o professor dos professores.

E em casa você pai ou mãe poderá, sim, opinar sobre todos os assuntos polêmicos e completar dizendo: “Eu penso assim, meu filho, mas é melhor que você se aprofunde ouvindo a opinião de seus professores e estudando mais História e Filosofia”. Essa clareza e sinceridade é muito mais educativa que encher as cabecinhas de nossos filhos com aulas e aulas de neutralidades insossas ou de radicalismos sectários. A escola não consegue preparar nossos filhos para viver de forma plena. Que possamos completar as lacunas.

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