Tempo de perdoar

EM: 13 de novembro de 2016

Quando eu tinha 14 anos, meu pai me deu uma surra lendária. Bateu-me com tapas e socos onde quer que atingisse. Eu, sentado no chão, tentava me proteger cobrindo minha cabeça com as mãos e braços e gritando escandalosamente para que alguém me salvasse. Tias, minha mãe e a vovó correram intervir e gritavam: “Pare! Na cabeça não é lugar de bater, chega!” Eu corri para o meu quarto e meu pai ficou ouvindo sermões intermináveis das superprotetoras.

Como eu sabia que era culpado e meu pai achava que não tinha exagerado nos tapas, nem eu nem ele jamais tocamos no assunto. Mas algo não ficou bem. Lá no fundo eu achava que não tinha merecido aquela surra. Eu já tinha 14 anos, ele poderia ter me dado algum castigo, mas não batido. A mágoa me acompanhou. Treze anos depois do ocorrido, meu pai faleceu. Um câncer o derrubou. Não tive oportunidade de pedir perdão pelo meu escândalo nem de perdoá-lo pela surra. Essa dor me acompanhava e me deixava triste nos momentos de silêncio ou de reflexão sobre a vida. Eu tinha que fazer algo.

Foi então que estudei sobre o perdão e seus efeitos. Aprendi que perdoar não é esquecer, é não mais exigir o pagamento. Entendi que perdoar não depende da outra pessoa pedir, mas da gente simplesmente deixar de lado qualquer sentimento negativo em relação a ela. É dizer internamente: “Ok, não precisa pagar nada”.

Fiz então um pequeno ritual. Escrevi uma carta para meu pai “Querido pai eu te perdoo e aceito o teu perdão”. Coloquei fogo no papel. Foi um momento libertador e quando aquelas imagens da surra vêm me perturbar, lembro do fogo apagando tudo e marcando um “antes-e-depois”. Meu coração está em paz e cheio de uma saudade sincera dos bons momentos que passamos juntos. Restou o carinho.

Faça o mesmo: livre-se de sentimentos como mágoa, amargura, vontade de vingar-se, ou qualquer outro que possa existir em seu coração e que esteja lhe machucando. Perdoe e vá ser feliz, pois você merece. E, claro, ensine seus filhos a perdoar.

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