Uma escada para o céu

EM: 18 de dezembro de 2016

Quando eu tinha uns dez anos de idade, eu passava a maior parte das minhas férias escolares na casa da minha avó. Era um jeito de a minha mãe ter sossego e não explodir tendo que trabalhar como cabeleireira e ainda cuidar de cinco filhos. Todo ano era a mesma coisa:

– Marcos, a vovó Rosa já está te esperando!

E eu ia. Sempre achava chato ir, pois não tinha com quem brincar e a vovó só queria um neto por perto, pois dois dariam muito trabalho. Mas quando eu chegava, tinha uma casa, uma vovó e tempo ocioso só para mim.

Como não tinha outra coisa a fazer, eu lia. Naquela antiga casa de madeira havia uma estante “mágica” com dezenas de livros infantis. Irmãos Grimm, Christian Andersen, contos fantásticos, fábulas, duendes, monstros, dragões… A fantasia corria solta. Creio que li aqueles livros umas três ou quatro vezes e minha imaginação nunca mais foi a mesma. Quando eu ia dormir, ficava um tempão criando outras histórias, com finais que eu fantasiava. Numa dessas noites decidi que iria construir uma escada para o céu. (Talvez João e o pé de feijão tivessem me impactado demais). Seria de bambu. Compraria uma fazenda e plantaria todo o bambu necessário para emendar um no outro por quilômetros e quilômetros. Até fiz uns protótipos no dia seguinte com palitos de sorvete.

Então, depois que a escada estivesse pronta, eu subiria e veria como é que minha tia e meu outro avô, já falecidos, estariam vivendo. Iria descobrir como funciona tudo lá no paraíso. Falaria com Deus e pediria algumas coisas legais, como um estilingue mais forte ou um arco e flecha que funcionasse, pois os que eu fazia nunca davam certo. E, com certeza, pediria para o Criador que me desse superpoderes para que eu jamais morresse se fosse lutar contra um dragão.

Era exatamente isso. Eu tinha que fazer uma escada para chegar ao céu.

Já se passaram mais de 40 anos desde que decidi construir a escada. Não sei como é o paraíso e espero demorar muito tempo ainda para conhecê-lo. Não comprei a fazenda. Não plantei bambus. E, graças a Deus, não encontrei o dragão.

Fiz muitas coisas e aprendi outras. Muitas outras. Aprendi que aproximar-se do céu é fazer o bem para outras pessoas sem esperar nada em troca. Isso nos torna melhores, mais dignos e mais humanos. Aprendi a não acusar, julgar ou humilhar ninguém.

São aprendizados que começaram lá atrás no meio das páginas de contos, fábulas e estórias fantásticas. Livros que nossos filhos precisam ler. Fantasias que precisam construir. Valores que, uma vez aprendidos, farão deles, pessoas melhores. E, por último, aprendi que são esses valores que constroem uma escada para o céu.

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