Meus heróis são diferentes

EM: 19 de março de 2017

O goleiro Bruno foi preso por assassinato e solto por minúcias processuais jurídicas. Dá muita tristeza ver como funciona a Justiça em nosso país. Esse é apenas um caso. No entanto o que me deixou indignado essa semana foi ver o goleiro, já solto, ao lado de crianças e adolescentes implorando por um autógrafo dele. Por um momento pensei que era uma montagem fotográfica, pois em minha ingenuidade algo assim jamais aconteceria, mas a foto era real. Crianças cujo herói matou uma mulher e jamais contou para a família dela onde o corpo está. Nunca disse onde a escondeu. Uma pessoa que se arrepende de verdade teria contado, chorado e implorado por perdão, mas ele está sorrindo e autografando. Pensei na família Samudio. Cada foto dele deve ser um tapa na cara uma cuspida na honra e um soco no estômago fazendo com que a dor se transforme na esperança de que a justiça divina faça o que a terrena não fez.

Voltemos às crianças. Que herói elas estão venerando? Onde estão os pais dessas crianças que não lhes ensinam que heróis são exemplos de ética, honra, honestidade, trabalho, solidariedade, amor e justiça?

E querem proibir que os professores opinem nas escolas. É justamente pela educação, pela capacidade de criticar, analisar, debater, filosofar, discutir todo tipo de tema que nossos jovens podem amadurecer e crescer como cidadãos. Não é proibindo o debate, mas construindo-o.

Com certeza se os temas como justiça, violência contra a mulher, ética, solidariedade, preconceito, fama, narcisismo e influência da mídia fossem debatidos em sala de aula, o caso “bruno” (sim com b minúsculo) já teria sido alvo de uma discussão profunda. E se assim fosse, as crianças teriam concluído que ele não pode ser herói de quem ama a verdade, a justiça e a solidariedade humana.

Quando eu era criança, meu herói era meu avô. Um sapateiro que ajudava os pobres e as viúvas e que trabalhava com tanto carinho que sempre apareciam viajantes de cidades próximas para encomendar as botas que jamais se estragavam. A filha dele, minha mãe, trabalhava num pequeno salão de beleza do nascer do sol até escurecer e depois limpava a casa e nos preparava o jantar. E no fim do dia, mesmo esgotada, nos lia histórias. Ela é minha heroína. Até hoje!

Realmente, meus heróis são diferentes.

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